Main

novembro 06, 2006

O Sopro do Tempo.

strsba1.jpg
"An 11. Dawa 2001 (42)". Fotografia a cores a partir do video. Anellies Strba. 2001.

A noite
(essa coisa que me trabalha
amor
ou cifra obscura)
abre uma brecha
no real.

A religião da carne
cria outro mundo.

Um jardim
ao fim da tarde.

Um cheiro
a rosa madura
e o desejo insensato
de cartografar
o veio lírico.

Escrever
para firmar passo
num terreno varrido
pelo sopro do tempo.

novembro 05, 2006

Paralaxe.


"Ich weiß nicht, wie sich die Dinge jetzt weiterentwickeln". Crayon acrílico sobre madeira. Robert Lucander. 2003.

Acho-me bem
nesta vida errante
o olhar fendido
presa duma paralaxe
insanável.

O pasmo é um acidente.
Gravito em torno
deste silêncio vestibular
e conjecturo revoluções.

outubro 08, 2006

A Boca das Palavras.

SaintExupery.jpg
"Saint Exupery". Acrílico sobre tela. Jorge Fin. 2003.


O ritual é efémero
instante dos instantes.
O artista
pressente
o acaso
surpreende
a noite
revela-lhe
o coração
oferta-lhe
os olhos
adere
a uma realidade
que lhe escapa.

O ritual é efémero.
O poeta
abre a janela
lança-se no espaço
e sonha
delírios de sangue.
Um magma
informe
sobe-lhe urgente
à boca das palavras.

O ritual é efémero.


Versão revista de um texto escrito "a duas mãos" (com C S A ) e publicado a 9 de Outubro de 2005.

setembro 18, 2006

O Coração da Sombra.

14_seen_94_3_m.jpg
"Seen and Not Seen 94-3". Fotografia de Ken Rosenthal. 2006

Uma língua vibrátil
quente
afeiçoa o espaço
e adensa-se
absoluta
na forma dos corpos.

Soberana
códice antigo
de trevas e luz
afirma com fragor
o império do sangue.

Do coração da sombra
dessa flor negra
rubra
instante
renasce
maré submissa
de lábios e dedos
a força silenciosa
de umas mãos.

setembro 17, 2006

Ângulo Vivo.


"Kabuki 3". Óleo, acrílico e fotografia sobre tela. Arturo Cuenca. 2005.


Um ângulo vivo
entre o teu corpo
e o meu olhar.

Uma geometria caprichosa
toda ela
alusões e desvios
no jeito
com que subvertes
as categorias
do espaço.

Um ritmo lunar
na respiração
e uma toada
de redenção
no som cavo da tua voz.

Há uma ciência oculta
na forma como
os teus lábios
entreabertos
aceleram o
o ar em volta.


Misteriosa embriaguez
esta urgência
de profanação
que avança
sorvendo
cada voluta do teu hálito.


Utopia da diluição
busca insana
do não-tempo.

setembro 11, 2006

Química Oculta.


"Ava Gardner". Fotografia (c-print) de Coke Wisdom O’Neal. 2001.

Despeço
um beijo
e vejo
como vence
a fronteira
do visível.

A noite
desvela
uma química oculta.

Lábios
disputando
impunes
a supremacia do olhar.

setembro 07, 2006

Flor Inflamada.


"Blauwe Zarina". Fotografia ("andreatype") de Floris Andrea. 1998.


Instalo-me
no teu recôncavo
mais fiel.

Faço de ti
o lugar
capital
dos meus des(a)tinos
e colho
o néctar
espesso
do instante.

Espero
que o poema
flor inflamada
não falte
ao encontro.

agosto 08, 2006

Tempo de Sagração.


"From Dawa An II". Fotografia a cores sob placa de vidro. Annelies Strba . 2001.

I

Diz
o teu
nome.

Como
se a palavra
tivesse
o peso ritual
de outrora
e nos teus olhos
bailasse
solene
o mar de Agosto.

Diz-mo
uma e outra vez.
O verão
é um projecto
em marcha
e a saudade
de um pinhal
qualquer
faz-se mais
presente.

Vamos diz.
Deixa
que os lábios
arrendondem
o som
e o peito
se te vá
todo nele.

II

Exploro
meticuloso
o texto escrito
no corpo
litoral
e o teu canto
ressoa
com mais maresia.

Um raio quente
desperta-te o colo
quando
devota
chamas
por mim.

Tempo
de sagração.
Dizes
o meu nome
agora.
Sim?

julho 28, 2006

Reverso.


"Yin.Yang". Fotografia de Koichiro Kurita. 2002.


Escrever
um reverso
é visitar
um lugar
improvável.

Como acariciar
uma nuca
a contrapelo
e cometer
um poema
porque
o veludo quente
de um seio
nos interpela
incontinente
dos bordos
da blusa.

Ou
aspirar
à ciência
infusa
das marés
porque habitados
pelo marulhar
distraído
do sangue.

Vaga
que se alteia
e derrama
o verso
é outra história.