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abril 03, 2007

A Música do Tempo.


“Quicksilver”. Imagem de DVD em loop. Zilla Leutenegger. 2002.

Primeiro
o espaço de um instante
e tu nele.

Cortejo o vazio
que me espera
do teu outro lado
e aprendo a ler o rio
enquanto cantas
à lua e às estrelas.

A música do tempo
corre prazenteira
e não sei se estou
ou sou inteiro
no aconchego da escuridão.


Mais tarde
quando o lirismo
se confunde com o sangue
e a efusão com a agonia
acabo náufrago
na margem estreita
entre o êxtase
e esta maldição.
O dia começa cedo
e as nossas vozes
ainda tão cheias
de tudo.

março 05, 2007

A Constância dos Objectos.


"Sin - Without". Litografia de Ed Ruscha. 2002.

Se eu pudesse domar
a memória daquelas tardes
a curva dos teus rins
desenhando
o rosto (in)provável da felicidade
no velame dos lençóis.

Se eu pudesse
trazer à boca
a sombra escarlate
dos lábios
porta derradeira
do teu tremor.

Se eu pudesse
acordar o réptil
que dorme em mim
e resgatar o poder demiúrgico
da tua geografia.

Se eu pudesse subtrair-me
ao império dos meus fantasmas
e não vivesse neste apego
paradoxal
à constância dos objectos.

Inventaria a tua fragância
na polpa dos dedos
e no calor peninsular do corpo
montaria uma coreografia de brisas
só para poder gozar
as pretensões metafísicas
do teu arrepio.

fevereiro 23, 2007

A Arte da Atenção.


"In line". Fotografia de Ori Gersht. 2005.

Aprender
a ler o silêncio
e dar carne
ao espaço ígneo
entre as palavras.
(Re)abrir os olhos
e celebrar
em cada uma
as bodas dionisíacas
do pensamento e da emoção.

Refundar a paixão
pela escassez.
Pensar um verso
que sendo fragmento
ponha cobro à fragmentação
e desenhe uma brecha num real
que não passa de encenação.

Estar atento à figura
que diz o silêncio
e a sua ausência
uma palavra de iniciação
como o sopro que vive inteiro
no recesso de uma flor.

Sílabas
habitadas pelo relâmpago
crepitando na boca
como se fossem
o ponto de apoio
de todo o universo
o poema é um pássaro
que voa o seu canto
som feito carne
que se imola num destino branco
chave de qualquer coisa
bálsamo de outra morte.

fevereiro 17, 2007

Nudez.


"Tree". Acrílico sobre tela. Merlin James.2003-2006.

Cai uma chuva de outro tempo.

Contemplo a nudez desta árvore.
Ainda que domine o olhar
a métrica perfeita das gotas
e o brilho lustral
com que resvalam na carne
devolvem-me a própria nudez.

A chuva banha a madrugada.
A noite coagulou
num ramo de rosas negras
como se as palavras
cifra de uma ausência
nos pensassem do outro lado
do sonho.

Cá dentro
um animal furtivo
continua a uivar
o seu ofício de sombras.


janeiro 24, 2007

Coração Alado.

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"Stairs To Nowhere" Fotografia de Ray Carofano. 2004.



Regresso outra vez
ao silêncio insone da sombra.
Noiva zelosa
a noite oficia o seu ritual
com o desvelo de sempre
e ignoro
se é o negro imperial
do firmamento
a invadir-me
por inteiro
ou se continuo sendo
um acidente estelar
sem gravidade.

Ainda não sei se vivo
mas persisto
o peito feito
ao vagaroso gotejar dos dias
e uma ilusão de transcendência
ensaiando variações
no lugar da alma.

Já não reconheço
os contornos da madrugada.
O código opaco
a que alguns chamam loucura
talvez espere
a chegada da tarde
ou a claridade fulgurante
dos agostos
que ainda trago em mim.

Avanço e abraço
incerto
a figura de um coração alado
ícone distraído
da minha errância.

Durmo
desalmado.
Deixo-me embalar
pelo rumor ausente do mar
e abandono a metafísica
à sua sisudez.

janeiro 07, 2007

A noite.

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"Madrugada 2". Fotografia de J.A.S. Cabanas de Tavira. 2006.



A parte de noite
que se acolhe
no mais fundo de nós
vive soberana
na cumplicidade
entre a luz e o sangue.

O calor do aperto abrasa
e o negro absoluto
espreita dos teus olhos.

Uma voz chama
quando me acho em ti
(o tempo embala
as suas vítimas)
e tudo se resolve
na equação impossível
dos corpos bailando
um fado divino.


Assim se esvai a vida
pulsão de morte
e enquanto a mordo
imprudente
em mim lateja e pulsa
a velha aliança
da noite com o fim.


Não adianta querer
calar o tempo
os mortos terão sempre
uma voz.

dezembro 02, 2006

A Natureza do Pranto.

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"Lijiang River. Study 3. Guilin. China". Fotografia de Michael Kenna. 2006.


Fosse eu rio
caudal majestoso
de silêncio e morte
o corpo transmutado
num tropel de espuma
e entraria em ti
para sair
ufano
do aperto do leito.

Fosse eu rio
e fui-o
que este travo na boca
não desmente
o frio dos seixos
enrolando-me a língua
e estas mãos leriam
insones
a suavidade vertical
do teu desejo.


Fosse eu rio
matéria do tempo
travestida
e talvez compreendesse
a intimidade da sombra
e do prazer
como a pálpebra compreende
e desposa
a natureza líquida
do pranto.


novembro 20, 2006

Meridianos.


"The Bed, The Chair, Head to Foot". Óleo sobre linho. Eric Fischl. 2000.

Ignoro
o capricho
que te leva
a altear o peito
quando me olhas
ou o momento
em que a lágrima
desce furtiva
as espiras do cerebelo.
Algo na penumbra
me revela
que durante sua viagem
forças afins à noite
e ao movimento dos corpos
se entretêm a semear
esta urgência
de cruzar meridianos.


outubro 30, 2006

Recados da Noite.


"Koto-no-Owari". Part of installation with 6 tv monitors. Noritoshi Hirakawa. 1995.


Amassar a matéria do passado
sono que amanhece estreito
sobre a vida.
Ancorar a memória
murmúrio
num corpo de trevas
e trazer recados da noite.
Arrancar a voz
à jurisdição do silêncio.
Triunfo de um sagrado
sem teologia.
Tudo em nome de uma manhã de outono.

agosto 16, 2006

A Vocação de um Corpo.


"Portrait". Óleo sobre tela. Wilhelm Sasnal. 2001.

Outra vez
me interrogo
sobre o que seja
a vocação
de um corpo.


O lugar
onde as palavras
servem um projecto
de reinvenção
do cosmos
ou a porta aberta
por onde espreita
o místico
ferido de intermitência.

Outra vez
esta urgência
de encontrar
a máquina ideal
que viesse revogar
a história
e fazer da noite
a redenção
da geografia.

Outra voz.
Queria
um canto
que fosse mais
que um destino.
Regressar
do exílio
com uma música
lunar
cantando-me o sangue
em harmónicos
desconhecidos.


Outra voz.
Como se
plantar
palavras
à sombra
de um corpo
fosse
consubstancial
à arte do som.

julho 17, 2006

A Possibilidade de um Céu.

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"A someone-else version of me". Fotografia de Maggie Preston. 2004.

Nas tuas mãos
solidárias
a luz
e o negro
conspiram
no silêncio
dos símbolos mudos.

Nas tuas mãos
sábias
cartografo
a possibilidade
de um céu.

Nas tuas mãos
e além
na doce embriaguês
do teu sorriso
vertical
o meu olhar
vindima
o calor rubi
de um vinho
redondo.

julho 01, 2006

Fases da Lua.


"Hard To Wait". Fotografia de Mathew Handelman. 2006.

A lua cheia
entra
em casa
e uma embriaguez
arterial
veste-nos de luz.

Um feixe iridiscente
abrigou-se
no teu colo.
Grito púrpura
no lugar do coração.


Que mistério
guarda a lua
que cada sístole
é um pássaro
à espera
de abrir as asas.

Animal sedento
assisto-te na lenta
transformação da luz
em matéria.

Fiel às profecias
e ao teu fervor
órfico
sorvo as gotículas
que te perlam
o decote
e demando
um mar
de tranquilidade.

O que nos separa
afinal
da penumbra.


O que é a lua nova
senão o triunfo
de uma litania
negra.


junho 19, 2006

O Rumor das Pétalas.


"Madrugada de 30 de Agosto. Cabanas de Tavira". Fotografia de J.A.S.. 2005.

Vi
a substância rósea
da manhã
e a graça
das pétalas
tombadas.

(Tudo é augúrio.)

Vi
a rosa
abraçada
à própria morte.
Um perfume
de vertigem
e esquecimento
impregna o tempo
de um lamento.

E senti
o vento
como o sopro
de uma sílaba
inelutável
desposando
o rumor doce
das pétalas
caindo.

(Tudo é presságio.)

Flecha do tempo.
Vento e flor
recuperam
o diálogo perdido
entre a terra e o céu.

A rosa diz
sem dizer
numa língua urdida
de verão
e noites estreladas.


(Tudo está na atenção
e nada mais
importa.)

junho 10, 2006

Corpos Celestes.


"Faith". Óleo sobre tela e cartão.Colecção privada. Frank Moore . 2000.

Quando suspeitei
que os meus fantasmas
se organizavam
em constelação
compreendi a minha atracção
pelos corpos celestes.

Como vivemos
em estado de excepção
permanente
quem sabe
se
este teatro de vultos
ocupados em povoar
o firmamento
irredutível às leis da biologia
não será
a forma de vida
que nos resta?

junho 07, 2006

Teatro do Mundo.


"Exhibition image". Fotografia de Annelies Strba. 2006.



Teatro do mundo.

O arco e a flecha.

A quietude
rendida
ao encanto délfico
do abismo.

Um voo rasante
rumo ao lugar
impossível
da revelação.

junho 06, 2006

Perfume.


"The Milk". Lápis sobre papel.Toc Fetch. 2005.

Sonho um amor
casto e evanescente.

Sonho relâmpagos
na noite
e um perfume
exaltado
a mar.

O santo
e o louco
prisioneiros
do mesmo desejo.

Firmamentos.

lalecturadelsol.jpg
"LA LECTURA DEL SOL". Acrílico sobre tela. Jorge Fin. 1996.


O lirismo.

Ainda que
agonia
imcompleta
é a defesa possível
contra a marcha
da morte.

Enquanto o sangue
e o brilho
de uma lágrima
inundam
o império da razão
uma mulher
ergue os braços
e semicerra as pálpebras.

Convite
à contemplação
de outros firmamentos.

Pacto.


"Untitled (08), Siberia Series". Medium c-print. Anna Shteynshleyger. 2002.


Pacto com o além.

Explorar
a etimologia
da palavra
celeste.

junho 05, 2006

A Idade da Sombra.


"2005, VII.X" . Medium oil on panel. Stephen Pentak. 2005.


Ver para crer.

Uma manhã
tão sensível
que grava a idade
da minha sombra.

Desfiar palavras
e encontrar
o silêncio.