Intendências II....
O "Prima Scripta" está, desde Abril, disponível aqui.
O "Prima Scripta" está, desde Abril, disponível aqui.

“Quicksilver”. Imagem de DVD em loop. Zilla Leutenegger. 2002.
Primeiro
o espaço de um instante
e tu nele.
Cortejo o vazio
que me espera
do teu outro lado
e aprendo a ler o rio
enquanto cantas
à lua e às estrelas.
A música do tempo
corre prazenteira
e não sei se estou
ou sou inteiro
no aconchego da escuridão.
Mais tarde
quando o lirismo
se confunde com o sangue
e a efusão com a agonia
acabo náufrago
na margem estreita
entre o êxtase
e esta maldição.
O dia começa cedo
e as nossas vozes
ainda tão cheias
de tudo.
Por razões alheias à minha vontade, o serviço de blogues a que venho recorrendo nem sempre garante a introdução dos comentários.
O "Prima Scripta" ( e a possibilidade de comentar...) passará a estar disponível aqui.
P.S.: a actual url continuará funcional até Maio.

"Sin - Without". Litografia de Ed Ruscha. 2002.
Se eu pudesse domar
a memória daquelas tardes
a curva dos teus rins
desenhando
o rosto (in)provável da felicidade
no velame dos lençóis.
Se eu pudesse
trazer à boca
a sombra escarlate
dos lábios
porta derradeira
do teu tremor.
Se eu pudesse
acordar o réptil
que dorme em mim
e resgatar o poder demiúrgico
da tua geografia.
Se eu pudesse subtrair-me
ao império dos meus fantasmas
e não vivesse neste apego
paradoxal
à constância dos objectos.
Inventaria a tua fragância
na polpa dos dedos
e no calor peninsular do corpo
montaria uma coreografia de brisas
só para poder gozar
as pretensões metafísicas
do teu arrepio.

"In line". Fotografia de Ori Gersht. 2005.
Aprender
a ler o silêncio
e dar carne
ao espaço ígneo
entre as palavras.
(Re)abrir os olhos
e celebrar
em cada uma
as bodas dionisíacas
do pensamento e da emoção.
Refundar a paixão
pela escassez.
Pensar um verso
que sendo fragmento
ponha cobro à fragmentação
e desenhe uma brecha num real
que não passa de encenação.
Estar atento à figura
que diz o silêncio
e a sua ausência
uma palavra de iniciação
como o sopro que vive inteiro
no recesso de uma flor.
Sílabas
habitadas pelo relâmpago
crepitando na boca
como se fossem
o ponto de apoio
de todo o universo
o poema é um pássaro
que voa o seu canto
som feito carne
que se imola num destino branco
chave de qualquer coisa
bálsamo de outra morte.

"Tree". Acrílico sobre tela. Merlin James.2003-2006.
Cai uma chuva de outro tempo.
Contemplo a nudez desta árvore.
Ainda que domine o olhar
a métrica perfeita das gotas
e o brilho lustral
com que resvalam na carne
devolvem-me a própria nudez.
A chuva banha a madrugada.
A noite coagulou
num ramo de rosas negras
como se as palavras
cifra de uma ausência
nos pensassem do outro lado
do sonho.
Cá dentro
um animal furtivo
continua a uivar
o seu ofício de sombras.

"Stairs To Nowhere" Fotografia de Ray Carofano. 2004.
Regresso outra vez
ao silêncio insone da sombra.
Noiva zelosa
a noite oficia o seu ritual
com o desvelo de sempre
e ignoro
se é o negro imperial
do firmamento
a invadir-me
por inteiro
ou se continuo sendo
um acidente estelar
sem gravidade.
Ainda não sei se vivo
mas persisto
o peito feito
ao vagaroso gotejar dos dias
e uma ilusão de transcendência
ensaiando variações
no lugar da alma.
Já não reconheço
os contornos da madrugada.
O código opaco
a que alguns chamam loucura
talvez espere
a chegada da tarde
ou a claridade fulgurante
dos agostos
que ainda trago em mim.
Avanço e abraço
incerto
a figura de um coração alado
ícone distraído
da minha errância.
Durmo
desalmado.
Deixo-me embalar
pelo rumor ausente do mar
e abandono a metafísica
à sua sisudez.
"Madrugada 2". Fotografia de J.A.S. Cabanas de Tavira. 2006.
A parte de noite
que se acolhe
no mais fundo de nós
vive soberana
na cumplicidade
entre a luz e o sangue.
O calor do aperto abrasa
e o negro absoluto
espreita dos teus olhos.
Uma voz chama
quando me acho em ti
(o tempo embala
as suas vítimas)
e tudo se resolve
na equação impossível
dos corpos bailando
um fado divino.
Assim se esvai a vida
pulsão de morte
e enquanto a mordo
imprudente
em mim lateja e pulsa
a velha aliança
da noite com o fim.
Não adianta querer
calar o tempo
os mortos terão sempre
uma voz.

"Lijiang River. Study 3. Guilin. China". Fotografia de Michael Kenna. 2006.
Fosse eu rio
caudal majestoso
de silêncio e morte
o corpo transmutado
num tropel de espuma
e entraria em ti
para sair
ufano
do aperto do leito.
Fosse eu rio
e fui-o
que este travo na boca
não desmente
o frio dos seixos
enrolando-me a língua
e estas mãos leriam
insones
a suavidade vertical
do teu desejo.
Fosse eu rio
matéria do tempo
travestida
e talvez compreendesse
a intimidade da sombra
e do prazer
como a pálpebra compreende
e desposa
a natureza líquida
do pranto.

"The Bed, The Chair, Head to Foot". Óleo sobre linho. Eric Fischl. 2000.
Ignoro
o capricho
que te leva
a altear o peito
quando me olhas
ou o momento
em que a lágrima
desce furtiva
as espiras do cerebelo.
Algo na penumbra
me revela
que durante sua viagem
forças afins à noite
e ao movimento dos corpos
se entretêm a semear
esta urgência
de cruzar meridianos.

"An 11. Dawa 2001 (42)". Fotografia a cores a partir do video. Anellies Strba. 2001.
A noite
(essa coisa que me trabalha
amor
ou cifra obscura)
abre uma brecha
no real.
A religião da carne
cria outro mundo.
Um jardim
ao fim da tarde.
Um cheiro
a rosa madura
e o desejo insensato
de cartografar
o veio lírico.
Escrever
para firmar passo
num terreno varrido
pelo sopro do tempo.

"Ich weiß nicht, wie sich die Dinge jetzt weiterentwickeln". Crayon acrílico sobre madeira. Robert Lucander. 2003.
Acho-me bem
nesta vida errante
o olhar fendido
presa duma paralaxe
insanável.
O pasmo é um acidente.
Gravito em torno
deste silêncio vestibular
e conjecturo revoluções.

"Koto-no-Owari". Part of installation with 6 tv monitors. Noritoshi Hirakawa. 1995.
Amassar a matéria do passado
sono que amanhece estreito
sobre a vida.
Ancorar a memória
murmúrio
num corpo de trevas
e trazer recados da noite.
Arrancar a voz
à jurisdição do silêncio.
Triunfo de um sagrado
sem teologia.
Tudo em nome de uma manhã de outono.

"Saint Exupery". Acrílico sobre tela. Jorge Fin. 2003.
O ritual é efémero
instante dos instantes.
O artista
pressente
o acaso
surpreende
a noite
revela-lhe
o coração
oferta-lhe
os olhos
adere
a uma realidade
que lhe escapa.
O ritual é efémero.
O poeta
abre a janela
lança-se no espaço
e sonha
delírios de sangue.
Um magma
informe
sobe-lhe urgente
à boca das palavras.
O ritual é efémero.
Versão revista de um texto escrito "a duas mãos" (com C S A ) e publicado a 9 de Outubro de 2005.

"Seen and Not Seen 94-3". Fotografia de Ken Rosenthal. 2006
Uma língua vibrátil
quente
afeiçoa o espaço
e adensa-se
absoluta
na forma dos corpos.
Soberana
códice antigo
de trevas e luz
afirma com fragor
o império do sangue.
Do coração da sombra
dessa flor negra
rubra
instante
renasce
maré submissa
de lábios e dedos
a força silenciosa
de umas mãos.

"Kabuki 3". Óleo, acrílico e fotografia sobre tela. Arturo Cuenca. 2005.
Um ângulo vivo
entre o teu corpo
e o meu olhar.
Uma geometria caprichosa
toda ela
alusões e desvios
no jeito
com que subvertes
as categorias
do espaço.
Um ritmo lunar
na respiração
e uma toada
de redenção
no som cavo da tua voz.
Há uma ciência oculta
na forma como
os teus lábios
entreabertos
aceleram o
o ar em volta.
Misteriosa embriaguez
esta urgência
de profanação
que avança
sorvendo
cada voluta do teu hálito.
Utopia da diluição
busca insana
do não-tempo.

"Ava Gardner". Fotografia (c-print) de Coke Wisdom O’Neal. 2001.
Despeço
um beijo
e vejo
como vence
a fronteira
do visível.
A noite
desvela
uma química oculta.
Lábios
disputando
impunes
a supremacia do olhar.

"Blauwe Zarina". Fotografia ("andreatype") de Floris Andrea. 1998.
Instalo-me
no teu recôncavo
mais fiel.
Faço de ti
o lugar
capital
dos meus des(a)tinos
e colho
o néctar
espesso
do instante.
Espero
que o poema
flor inflamada
não falte
ao encontro.

"Portrait". Óleo sobre tela. Wilhelm Sasnal. 2001.
Outra vez
me interrogo
sobre o que seja
a vocação
de um corpo.
O lugar
onde as palavras
servem um projecto
de reinvenção
do cosmos
ou a porta aberta
por onde espreita
o místico
ferido de intermitência.
Outra vez
esta urgência
de encontrar
a máquina ideal
que viesse revogar
a história
e fazer da noite
a redenção
da geografia.
Outra voz.
Queria
um canto
que fosse mais
que um destino.
Regressar
do exílio
com uma música
lunar
cantando-me o sangue
em harmónicos
desconhecidos.
Outra voz.
Como se
plantar
palavras
à sombra
de um corpo
fosse
consubstancial
à arte do som.

"From Dawa An II". Fotografia a cores sob placa de vidro. Annelies Strba . 2001.
I
Diz
o teu
nome.
Como
se a palavra
tivesse
o peso ritual
de outrora
e nos teus olhos
bailasse
solene
o mar de Agosto.
Diz-mo
uma e outra vez.
O verão
é um projecto
em marcha
e a saudade
de um pinhal
qualquer
faz-se mais
presente.
Vamos diz.
Deixa
que os lábios
arrendondem
o som
e o peito
se te vá
todo nele.
II
Exploro
meticuloso
o texto escrito
no corpo
litoral
e o teu canto
ressoa
com mais maresia.
Um raio quente
desperta-te o colo
quando
devota
chamas
por mim.
Tempo
de sagração.
Dizes
o meu nome
agora.
Sim?

"Yin.Yang". Fotografia de Koichiro Kurita. 2002.
Escrever
um reverso
é visitar
um lugar
improvável.
Como acariciar
uma nuca
a contrapelo
e cometer
um poema
porque
o veludo quente
de um seio
nos interpela
incontinente
dos bordos
da blusa.
Ou
aspirar
à ciência
infusa
das marés
porque habitados
pelo marulhar
distraído
do sangue.
Vaga
que se alteia
e derrama
o verso
é outra história.

"A someone-else version of me". Fotografia de Maggie Preston. 2004.
Nas tuas mãos
solidárias
a luz
e o negro
conspiram
no silêncio
dos símbolos mudos.
Nas tuas mãos
sábias
cartografo
a possibilidade
de um céu.
Nas tuas mãos
e além
na doce embriaguês
do teu sorriso
vertical
o meu olhar
vindima
o calor rubi
de um vinho
redondo.

"Hard To Wait". Fotografia de Mathew Handelman. 2006.
A lua cheia
entra
em casa
e uma embriaguez
arterial
veste-nos de luz.
Um feixe iridiscente
abrigou-se
no teu colo.
Grito púrpura
no lugar do coração.
Que mistério
guarda a lua
que cada sístole
é um pássaro
à espera
de abrir as asas.
Animal sedento
assisto-te na lenta
transformação da luz
em matéria.
Fiel às profecias
e ao teu fervor
órfico
sorvo as gotículas
que te perlam
o decote
e demando
um mar
de tranquilidade.
O que nos separa
afinal
da penumbra.
O que é a lua nova
senão o triunfo
de uma litania
negra.

"Madrugada de 30 de Agosto. Cabanas de Tavira". Fotografia de J.A.S.. 2005.
Vi
a substância rósea
da manhã
e a graça
das pétalas
tombadas.
(Tudo é augúrio.)
Vi
a rosa
abraçada
à própria morte.
Um perfume
de vertigem
e esquecimento
impregna o tempo
de um lamento.
E senti
o vento
como o sopro
de uma sílaba
inelutável
desposando
o rumor doce
das pétalas
caindo.
(Tudo é presságio.)
Flecha do tempo.
Vento e flor
recuperam
o diálogo perdido
entre a terra e o céu.
A rosa diz
sem dizer
numa língua urdida
de verão
e noites estreladas.
(Tudo está na atenção
e nada mais
importa.)
"Faith". Óleo sobre tela e cartão.Colecção privada. Frank Moore . 2000.
Quando suspeitei
que os meus fantasmas
se organizavam
em constelação
compreendi a minha atracção
pelos corpos celestes.
Como vivemos
em estado de excepção
permanente
quem sabe
se
este teatro de vultos
ocupados em povoar
o firmamento
irredutível às leis da biologia
não será
a forma de vida
que nos resta?

"Fact of matter tending to exist". Fotografia de Terry Taylor. 2005.
Quando em mim
pulsa
um coração
que não me pertence
sei que é
vontade do mar.
E sei
quando no teu colo
choro
sem razão aparente
que é o mar
que por sua vontade
me invade
e nos submete
ao seu ritmo.
Pudesse eu
projecto de poema
simular
o marulhar hipnótico
das vagas.

"Exhibition image". Fotografia de Annelies Strba. 2006.
Teatro do mundo.
O arco e a flecha.
A quietude
rendida
ao encanto délfico
do abismo.
Um voo rasante
rumo ao lugar
impossível
da revelação.
"The Milk". Lápis sobre papel.Toc Fetch. 2005.
Sonho um amor
casto e evanescente.
Sonho relâmpagos
na noite
e um perfume
exaltado
a mar.
O santo
e o louco
prisioneiros
do mesmo desejo.

"LA LECTURA DEL SOL". Acrílico sobre tela. Jorge Fin. 1996.
O lirismo.
Ainda que
agonia
imcompleta
é a defesa possível
contra a marcha
da morte.
Enquanto o sangue
e o brilho
de uma lágrima
inundam
o império da razão
uma mulher
ergue os braços
e semicerra as pálpebras.
Convite
à contemplação
de outros firmamentos.

"Untitled (08), Siberia Series". Medium c-print. Anna Shteynshleyger. 2002.
Pacto com o além.
Explorar
a etimologia
da palavra
celeste.

"2005, VII.X" . Medium oil on panel. Stephen Pentak. 2005.
Ver para crer.
Uma manhã
tão sensível
que grava a idade
da minha sombra.
Desfiar palavras
e encontrar
o silêncio.